terça-feira, 4 de maio de 2010

Brasil 2010 e a Revolução Social

Essa matéria foi publicada na Edição 442 do Jornal Inverta, em 09/02/2010

Editorial de janeiro de 2010

O Brasil mergulha numa nova cronologia temporal sob o signo de uma revolução que deseja realizar-se, contida a ferro e a fogo pelos algozes de nosso povo e que comandam o poder real e efetivo na sociedade pelos cordões de aço que fazem as marionetes que dirigem estes níveis de poder na sociedade dançarem a música da submissão, da arrogância, da opressão e da miséria nacional.

O Brasil urbano, morro, aldeia, terra, impedido de se unir em organização consciente e revolucionária, se debate desesperadamente por continuar sua tarefa de fazer esta revolução própria e verdade histórica. Luta e continua em busca do caminho de sua unidade, que, um dia realizada, se fará invencível e vitoriosa - quando a voz do morro, a voz da aldeia, a voz da terra, a voz urbana, como voz operária, expressarem sua unidade de propósitos revolucionária, negando todo o quadro de violência, miséria, tortura e assassinato a que são submetidos, exigindo a liberdade verdadeira oprimida, a dignidade exilada, a resistência clandestina, que só esta revolução é capaz de resgatar e fazer valer.

Ao longo destes anos de tantos sacrifícios, humilhações, privações, exploração e opressão, um corisco corta os céus e as luzes se apagam, mas sempre um lampião se acende e a chama arde em nosso peito, nas entranhas do Brasil sertão, e resiste para não se apagar, tentando manter um ponto de iluminação, a nova coluna por onde o urbano, o morro, a aldeia, a terra possam continuar esta invencível marcha de reorganização, preparo e construção da revolução reclamada e exigida para libertar-se de vez o Brasil dos poderes do capital que delira no sonho de se tornar o novo veio da repressão imperialista em nosso continente.

Este lampião foi visto nas montanhas da Colômbia. Homens, mulheres e jovens de verdade, em guerrilha, unir palavras e vontades, verdade e razão, esperança e sonhos como prática cotidiana de ação e modo de vida transitório para a definitiva liberdade a realizar-se, cedo ou tarde, contra a versão destes poderes do capital naquele país. Enchemos nossos corações de esperança, da mesma forma que os grandes personagens de nossa imensa pátria latina, Nossa América, viram brotar nos grandes momentos decisivos em nossa História de Luta: Zumbi dos Palmares, Tupac Amaru, Sepé Tiaraju, Simón Bolívar, Sandino, Prestes, Che Guevara e tantos e tantas.

Sobre esta labareda de ardor e verdade revolucionária, ocorreu a tentativa da unidade revolucionária concreta entre o Brasil urbano, a aldeia, o morro, a terra e a cultura (homens, mulheres e jovens). Esta complexidade da antropogênese forçada e moldada ao capital, desde sua origem, que compreendemos como nossa gente; mas parece que, mais uma vez, esta tradição de divisão e falsa consciência que combina a opressão e repressão interna (subjetiva) e externa (os poderes do capital) foi ainda mais forte, ao ponto de se sobrepor à linha de unidade a que o inimigo comum e a história de resistência nos liga, como instrumento de vidas comuns e estreito rio de unidade de classe dos brasileiros oprimidos, que devem se unir e lutar por sua liberdade verdadeira e plural, vivificadora e revolucionária.

Sem dúvida, foi um ato desesperado e quase sonhador, porque o morro estava no exílio e clandestino, a aldeia presa à falsa consciência de si mesmo, a terra internada por entre entranhas dos poderes do capital do governo federal. O urbano no cinismo sórdido e hipócrita entre o super-homem e a infância ultrajada; o jovem, distante da responsabilidade real com sua liberdade e a de seu povo; e a direção recalcitrante e desesperadamente fora de forma.

Então a luta que se pretendia, o aprendizado que se pretendia, a unidade com que este lampião ardente da guerrilha pareceu distante e a intervenção da cultura, sempre vacilante entre o seu eu e o nós, entre o poder e o nós, não se fez ensinamento, nem plasma de sangue a correr em nossas veias, do coração ao cérebro, do cérebro aos músculos, que, com destreza, poderiam impulsionar os corpos ao movimento histórico da luta organizada unitária e invencível contra os poderes do capital em nosso país e Nossa América. A chama quase se apaga e o único modo de mantê-la acesa foi emigrá-la para os sertões, como nosso ponto de referência ao ideal perseguido.

Mas o Brasil que entrou em 2010 não pôde se livrar de suas contradições. Assim como nossa luta. Ele não pôde fugir das correntes de aço a que está preso na divisão do trabalho internacional do sistema de poderes do capital; portanto, seu desenvolvimento interno tem que se mover na dialética com a economia mundial e, ao contrário da situação histórica vivida na primeira metade do século passado, quando a grande crise de 1929, que se estende até o fim da Segunda Guerra Mundial, hoje não é possível desconectar a economia do moinho que se forma pela Lei Geral da Acumulação do Capital e, na medida em que o movimento deste moinho tem base nas forças mais poderosas da economia mundial (Estados Unidos, Europa e Japão), a economia nacional vive a crise de ruptura que, cedo ou tarde, se imporá politicamente na forma que é compreendida pelas forças do capital no país, entre a sobrevivência autônoma ou a submissão ao moinho de crise, assumindo seus custos e projetando uma sombra de maior profundidade da miséria, violência, extermínio, corrupção política e degradação moral que se submeterá o Brasil urbano, operário, o Brasil morro, favelado (informal), o Brasil da terra, camponês e sem-terra, o Brasil jovem em todos estes setores da reprodução humana, o Brasil da cultura; dos artistas intelectuais; nas montanhas e litorais, na floresta e no cerrado, nos sertões e cidades.

Os controladores dos operadores nacionais dos poderes do capital - governos, Forças Armadas, polícias, judiciário e parlamentar; a economia industrial, comercial, agroindústria, informal, bancária, seja em suas coalizões financeiras, como oligarquia dirigente, seja em aliança com os latifúndios do egresso poder tradicional - não podem escapar do moinho da crise fora da combinação histórica dos seus métodos, aqui já não é questão de humanidade ou inumanidade, racionalidade ou irracionalidade, razão ou paixão, mas a questão da contradição em que repousam, em última instância, estes poderes do capital e seus representantes, como categorias sociais: humano, para eles, é inumano para 9/10 da população do planeta; no Brasil, em particular, talvez mais, o mesmo se dá com o racional e o irracional, razão e paixão; todas estas ideias e noções conceituais que qualificam e quantificam o movimento dos sujeitos históricos articulados ao propósito comum em classes de interesses mediados e imediatos, se impõe e a solução da tensão desta contradição se resolve pela transição entre os pólos da mesma, do positivo ao negativo e vice-versa.

É assim que o principal peso na atual crise mundial em que o estrago formal do capital já superou em vários graus a crise de 1929 - os EUA diante de suas contradições internas e externas (Europa e Ásia) - se encaminha para um desfecho ainda mais terrível: a destruição das forças produtivas desenvolvidas, a exploração de novos mercados e a intensificação da exploração dos que já estão em sua posse. Esta mudança de qualidade no movimento tendencial de superação da crise pelos EUA se observa desde o ataque ao World Trade Center e ao Pentágono, em 2001, de lá até os dias atuais, assistimos um movimento gradual, uma acumulação de contradições econômicas, sociais, políticas interna e externa que o impulsionaram a uma mudança qualitativa do movimento.

O impasse e esgotamento da Guerra no Afeganistão e Iraque, a impossibilidade nuclear de desferir um golpe na Rússia ou na Coreia, ou ainda China; e já possivelmente o Irã; a agudização da crise de acumulação, o esgotamento das forças materiais e base medular do movimento econômico mundial em sua realização da produção social - o petróleo - a tensão crescente social, a pobreza, a miséria, a violência, o crescimento do capital informal; têm mostrado sensivelmente este movimento: Os postos de espionagem deslocados para a América Latina, o deslocamento da IV Frota (reativação), os golpes contra os governos progressistas que atendam mal às suas exigências, a ampliação de suas bases militares e o acordo de anexação da Colômbia, são elementos sintomáticos que denunciam esta mudança do movimento e anunciam a catástrofe irracional e inumana para os povos da América Latina, mas completamente lógico, racional e humano para eles.

Por outro lado, a exemplo da contradição presente na economia brasileira e que a levam a um caminho de ruptura com os grilhões da divisão do trabalho internacional e seu local econômico na economia mundial, também vivem os países que, submetidos aos modelos econômicos sob a lógica neoliberal, viram-se na contingência de interagirem - civilizadamente contra estes poderes do Capital - e dentro das condições históricas reais e concretas. O caso da Venezuela, Argentina, Equador, Nicarágua, El Salvador e mesmo, em outro sentido, o Brasil. A revolução bolivariana reviveu o movimento de insurgência em nossa América inspirada pela Revolução genuína de Cuba, nos anos 60 e 70, e que, independentemente do juízo que se faça em relação à luta do ELN e das FARC-EP na Colômbia, se manteve muito mais representativa por esta última, ao longo do grande interregno entre estes dois momentos do movimento dialético na história da luta pela libertação de nosso povo.

Como rastilho de pólvora, iluminou o caminho por onde vez ou outra novos lampiões incandesciam, como o Sendero Luminoso e Tupac Amaru, no Peru; La Tablada, na Argentina; o EZLN, no México; a ALP, no Brasil, e tantos outros, este rastilho de pólvora formou labaredas que se irradiavam nas rebeliões ora impotentes, ora frutíferas, condensando-a na revolução bolivariana, no governo de Evo Morales, e uma mudança qualitativa na geopolítica do continente latino-americano. O Brasil mergulha nesta onda com a chegada do PT e Lula ao Governo. O operário no Governo usou toda sua habilidade de liderança e negociação. Sem abrir mão dos seus "assessores", reuniu um grupo da pesada - ex-guerrilheiros; e ardilosos oportunistas trânsfugas do regime anterior - esta aliança explosiva conduziu bem ou mal a política do país a uma feição de dinâmica e participação ilusória e uma eficiente política - reality politics - aos moldes de Peter Drucker e sua nova realidade; e este programa assistencialista o fez mais popular que o papa, foi um verdadeiro Pelé, Garrincha ou Ronaldinho's, que superou Maradona, driblou todo mundo e recolocou a economia do país em brechas deixadas pelo imperialismo dos EUA. Surfou na onda das contradições da América Latina, África e Ásia (Terceiro Mundo), abrindo espaço para o desenvolvimento dos monopólios de associação de capital e de capital nacional e suas oligarquias. E, no plano de geopolítica, negociou sua capacidade de amansar a peãozada, os negros, as mulheres, os desempregados, os migrantes nordestinos, os indígenas. A reality politics chegou a todos na forma de migalhas da Bolsa-Família, Bolsa-Escola, microcréditos, inclusão digital, celulares, importados made in China, micro-aumentos, uma Índia de estímulos, divisão e manietamento social. Os movimentos sociais passaram à política “reclama mais que ele dá”, os monopólios capitalistas também, ora os latifúndios, ora o comércio, fundamentalmente, a indústria e, acima de tudo, os banqueiros. O Brasil de Lula começou sua invasão aos países irmãos da América Latina. O Paraguai tornou-se refém, o Equador, por pouco, não cai no conto da dívida e da depredação ambiental dos monopólios internacionais garimpados pela Petrobrás.

Diante deste quadro, não faltaram teorias para formular, como Aristóteles, a nova política de conquistas para nosso lulaxandre; as descobertas dos anos 50, 60 e 70 passaram a ser anunciadas como novidade: o antigo pró-álcool da ditadura se tornou viés da alternativa de combustível; e os latifundiários e usineiros, aliados à indústria automobilística, aplaudiram de pé nosso conquistador. Paralelamente, os poços do petróleo se multiplicaram, até chegar ao pré-sal. O Brasil, na contramão do avanço revolucionário da América Latina, impulsionado pela Venezuela e sua riqueza natural potencializada pelo trabalho humano - o petróleo - passou a enfrentar uma contra-política que fez arrefecer seu crescimento e poder de influência da causa bolivariana; enquanto o imperialismo dos EUA, o oficial, passa a enfrentar problemas com este, no plano de voo brasileiro de Lula. A proposta da ALCA é derrotada, em seu lugar, o Brasil faz ressuscitar o Mercosul; por outro lado, a ALBA que representava a genuína iniciativa revolucionária e a proposta de banco regional de Hugo Chávez e Fidel, agora, Ortega, passa a também esfriar. Ressurge a UNASUL, emparedando a histórica e pusilânime OEA.

O círculo de fogo passa a se fechar sobre nossa América e o Brasil, como coração pulsante da mesma, é o seu principal alvo. Os Estados Unidos se veem na contingência de intervenção e, quanto mais cresce sua crise interna e externa, mais seus teóricos racionais chegam a razão pura da necessária intervenção, fazendo com que a caracterização quase exagerada da ideia de recolonização, pois ela significa retroagir aos tempos da acumulação originária (acumulação primitiva) uma realidade concreta e inelutável, exigindo de todos: o Brasil urbano, o Brasil aldeia, o Brasil morro, o Brasil terra, o Brasil cultura, uma séria preparação e organização para o combate inevitável já não falo pela América Latina como objetivo consciente, mas como objetivo inconsciente, presente no combate pelo Brasil dado seu papel para o continente como um todo.

Assim, o Brasil mergulha em 2010 sobre esta sombra, que obscurece ainda mais quando se considera o processo de sucessão que se fará presente neste período. Nela se refletirão as contradições do movimento econômico interno e externo, que ameaçam a combinar-se em estratégia política aterrorizante para o povo brasileiro e os demais povos-irmãos da América Latina. O movimento econômico durante o governo Lula, o esforço de crescimento e acumulação na indústria conduziram uma grande parte deste setor no país a mudar sua matriz energética para o gás boliviano, que até então era importado pelo governo a preço de banana. Com a ascensão de Evo Morales ao governo, nacionalizou-se este bem natural, alterando-se os preços e impactando-se sobre os custos produtivos da indústria brasileira, em especial, a indústria paulista, que representa em torno de 30% da indústria nacional e que foi a responsável por toda uma campanha durante o atual governo para que interviesse militarmente na Bolívia e justamente nesta base social que se apoiou a força de oposição com condições concretas de chegar ao governo, representada pelo atual governador de São Paulo, José Serra, concentrando todas as forças neoliberais e pró-imperialistas do país.

Do outro lado, a futura candidata do governo, seu passado de militância na luta armada, desperta a reação de todas as forças conservadoras do país, que dificultam sua vitória eleitoral. Nestes termos, qualquer que seja o resultado eleitoral, implicará uma forte negociação com este setor do empresariado paulista e, nestas condições, a estratégia que se desenha para a América Latina, a partir do complexo industrial militar dos EUA, representado pelo Pentágono, encontrará um terreno fértil senão um governo 10 vezes mais poderoso que o governo colombiano para levar a cabo o plano de aplastamento do movimento revolucionário em todo o continente. Uma sinalização clara desta tendência se apresentou diante da polêmica em torno do Plano Nacional de Direitos Humanos, enxergado como peça de campanha para unir todos os atingidos pela ditadura militar em torno da campanha de Dilma Roussef, levando ao protesto e pedido de renúncia recusado por Lula, do ministro da Defesa, Nelson Jobim, acompanhado dos três ministros das FFAA: Exército, Marinha e Aeronáutica. Portanto, não é especulação vazia se atentar a este processo de desdobramento das eleições presidenciais.

Portanto, nas contradições de nossa luta e alma nacional, seu espírito singular da antropogênese forçada emana as razões históricas que forjam sua necessária e inevitável unidade; do clamor de suas privações e miséria, o programa de liberdade; da fraqueza de nossos esforços e derrotas, a solidez da experiência em combate e as condições, na tradição de nossos heróis: Zumbi dos Palmares, Sepé Tiaraju, Anita Garibaldi, Tiradentes, Luiz Carlos Prestes, Marighela, Lamarca e tantos outros - Lampiões e Coriscos conscientes - Retorna Kintê, a esperança se acende, a luta do morro continua, a luta urbana continua, a luta da terra continua, a luta da cultura continua. O Lampião continua aceso; o Jurista nos ajuda, a razão e a humanidade sobrevivem - no exílio e clandestinidade nos encontramos com nossa história e nosso povo, nossa classe, nossa Revolução e nosso país; venha aldeia, necessitamos do teu braço forte e da tua capacidade de resistência, venha terra, tuas mãos firmes nos ajudam a suportar o caminho e nos ensinam a sobreviver, venha cultura a razão social e humana nos dirigem aos caminhos e nos obrigam à reflexão dialética; venha juventude, comecemos a construir o futuro e formemos nosso caráter de trabalho, justiça, dignidade e internacionalismo de classe e revolucionário! Brasil, este é teu desafio histórico; Brasil, esta é a tua tarefa imediata!

Bem vindo Kintê! Ousar Lutar! Ousar Vencer! Venceremos!

P.I.Bvilla - Janeiro de 2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário