terça-feira, 3 de maio de 2011

Simone de Beauvoir - O Segundo Sexo

Muitos meninos, assustados com a dura independência a que são condenados, almejam então ser meninas; nos tempos em que o inicio os vestiam como elas, era muitas vezes com lágrimas que abandonavam o vestido pelas calcas, e viam cortar-lhes os cachos. Alguns escolhem obstinadamente a feminilidade, o que é uma das maneiras de se orientar para o homossexualismo; "desejei apaixonadamente ser menina, e levei a inconsciência da grandeza de ser homem até pretender urinar sentado", conta Maurice Sachs em Le Sabbat. Entretanto, se o menino se apresenta a principio como menos favorecido do que as irmãs, é que lhe reservam maiores desígnios. As exigências a que o submetem implicam imediatamente uma valorização. Em suas recordações, Maurras conta que tinha ciúmes de um caçula que a mãe e a avó tratavam com mais carinho: o pai pegou-o pela mão e levou-o para fora do quarto: " Nós somos homens; deixemos aí essas mulheres", disse-lhe. Persuadem a criança de que é por causa da superioridade dos meninos que exigem mais dela;  para encorajá-la no caminho difícil que é o seu, insuflam-lhe o orgulho da virilidade; essa noção abstrata reveste para ele um aspecto concreto: encarna-se o pênis; não é espontaneamente que sente orgulho de seu pequeno sexo indolente; sente-o através da atitude dos que o cercam. Mães e amas perputuam a tradição que assimila o falo à ideia de macho; seja porque lhe reconhecem o prestígio na gratidão amaorsa ou na submissão, seja porque constitua para elas um, revide reencontrá-lo na criança sob uma forma humilhada, o fato é que tratam o pênis infantil com uma complacência singular. Rebelais diz-nos dos folguedos das amas de Gargântua; a história registrou os das amas de Luís XIII. Mulheres menos impudentes dão entretanto um apelido gentil ao sexo do menino e falam-lhe dele como de uma pequena pessoa que é a um tempo ele próprio e um outro; fazem desse sexo, segundo, a expressão já citada, "um alter ego geralmente mais esperto,  mais inteligente e mais hábil do que o indivíduo. Anatomicamente, o pênis presta-se muito bem a esse papel; separado do corpo, apresenta-se como um pequeno brinquedo natural, uma especie de boneca. Valorizam portanto a criança valorizando-lhe o duplo. Um pai contava-me que um de seus filhos com a idade de três anos ainda urinava sentado; cercado de irmãs e primas de três anos, era uma criança tímida e triste; um dia o pai levou-o ao W.C dizendo-lhe; " Vou te mostrar como fazem os homens ". A partir de então o menino, orgulhoso de urinar em pé, desprezou as meninas "que mijam por um buraco"; seu desdém provinha originalmente, não do fato de carecerem de um órgão, mas sim pelo de não terem sido distinguidas e iniciadas pelo pai. Assim, longe de o pênis ser descoberto como um privilégio imediato de que o menino tiraria um sentimento de superioridade, sua valorização surge, ao contrário, como uma compensação - inventada pelos adultos e artorosamente aceita pela criança - para as durezas da última desmana; deste modo, ela se acha defendida contra a saudade de não ser mais uma criança de peito, de não ser uma menina. Posteriormente, o menino encarnará em seu sexo sua transcendência e sua soberania orgulhosa.
           
A sorte da menina é muito diferente. Nem mães nem amas têm reverência e ternura por suas partes genitais; não chamam a atenção para esse órgão secreto de que só se vê o invólucro e não se deixa pegar; em certo sentido, a menina não tem sexo. Não sente essa ausência como uma falha; seu corpo é evidentemente uma plenitude para ela, mas ela se acha situada no mundo de um modo diferente do menino e um conjunto de fatores pode transformar a seus olhos a diferença em inferioridade.

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